Home » News » Dentre os espinhos, uma rosa

No dia 8 de março de 1857, trabalhadoras de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque exigiam, pela greve, a redução da jornada de trabalho de 16 para dez horas; a equiparação ao salário dos homens, 1/3 maior, além de tratamento digno no ambiente profissional. A manifestação acabou com 130 mulheres carbonizadas dentro da fábrica.

Cento e cinquenta e cinco anos depois, mesmo com a homenagem do Dia Internacional da Mulher – oficializado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975, em decorrência do acontecimento de 1857 -, a situação das mulheres não é a ideal.

No Brasil, a renda média dos homens ainda é cerca de 72,7% maior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) de 2012. E apenas uma em cada cinco é chefe de família.

O ponto positivo é que nós, mulheres, ganhamos cada vez mais espaço. Já somos 23,85% entre os cargos mais elevados e temos três presidentes eleitas somente na América Latina. A porcentagem tímida torna-se uma gigante em comparação há 15 anos, quando representava somente 10%.

Pelas dificuldades ao longo da história, especialistas acreditam que as mulheres têm mais motivação para vencer o desafio da ascensão profissional. Foi nesta base que Claudete Pessôa, uma paraibana do interior, radicada no Rio de Janeiro, conseguiu se destacar.

Nascida pelas mãos de uma parteira, sempre esteve em busca de melhores condições, direta ou indiretamente.

Aos dez anos, já tinha se mudado três vezes. A primeira com o pai servente e a mãe costureira para a favela da Rocinha. A segunda, para morar de favor na chácara do patrão do pai, em Jacarepaguá. E a última, depois de a família passar por dois assaltos, para Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

“A localidade era muito pobre, sem recursos educacionais; meus pais lutaram muito para garantir o fundamental”.

O ensino era primordial para conquistar o sonho: ser professora. “Esta é a minha verdadeira vocação, o que me levou a ser normalista, no nível médio. Foi um período muito duro, onde eu precisava pegar duas conduções e só tinha dinheiro para uma, tendo que realizar o segundo trajeto a pé, em trecho muito deserto e perigoso. Resolvi vender salgadinhos para as minhas colegas de sala para garantir a passagem e o almoço. Fritava-os de madrugada, para que estivessem quentinhos ao servir”.

Destino ou merecimento, depois de não conseguir dar aulas no ensino infantil pelos baixos salários e de trabalhar por quatro anos em uma empresa de seguro e pecúlio – acordando às 4h30 para conseguir ir sentada no ônibus, em um percurso que durava duas horas – foi apresentada ao concurso público por uma colega. “Em 1993, almoçando, escutei uma colega de trabalho falando sobre concurso público, e me interessei tanto, que imediatamente comecei a me preparar. Em 1994, minhas irmãs iriam fazer o concurso para o TJ/RJ e pedi que elas fizessem a minha inscrição”.

A preparação para o cargo de auxiliar judiciário era realizada no trajeto entre a casa e o trabalho. “Como não tinha tempo de fazer curso preparatório, estudava no ônibus, pelas apostilas da minha irmã caçula. Resultado: fui classificada e melhorei minha classificação graças à datilografia”.

Com o estudo, Claudete descobriu o gosto pelo direito e ingressou na faculdade, em 1995. O presente de formatura foi o primeiro filho, que nasceu em 1999.

A dificuldade voltou a ser companheira de jornada anos depois, e a fez mudar para Rio das Ostras, também no Estado do Rio, e estabelecer seu local de trabalho no Fórum de Macaé. A necessidade de voltar à capital fluminense era latente no filho, então com cinco anos, que não se adaptou à nova vida. Para retornar à cidade, a porta foi, novamente, o concurso público. Desta vez, para oficial de justiça avaliadora do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

“Montei a seguinte estratégia: colocava meu filho para dormir às 21h, 22h e dormia com ele. Despertava às 3h, tomava um banho gelado, fazia um copão de café e estudava até as 6h. Deitava um pouco, recuperava as forças, levantava às 7h, cuidava da casa, do filho, deixava-o na creche, partia para o trabalho, retornava às 19h, fazia janta, atenção ao filho e marido. Nos finais de semana, me permitia dormir direto até as 7h e estudava o dia todo. Fiz isso por aproximadamente um ano. Gravei vários artigos do Código de Processo Civil e do Código de Processo Penal em fitas cassetes (tinhas três caixas de sapato cheias), e nas tarefas caseiras, muito mecânicas, escutava sempre”.

Nas férias, em janeiro de 2006, as horas de preparação, junto com duas amigas, foram elevadas a dez por dia. A classificação veio, mas em 19º lugar, em um total de sete vagas. Mesmo assim, a convocação chegou rápido: em junho do mesmo ano.

O desempenho na prova de legislação trouxe de volta o sonho da infância: ser professora. Hoje, Claudete não é apenas Claudete. É a Claudete Pessôa, oficial de justiça avaliadora do TJ/RJ, professora de legislação em preparatórios para concursos, presenciais e virtuais, autora do livro Legislação Orgânica do MPU Esquematizada (Campus/Elsevier) e palestrante.

Os títulos são resultado do caráter e da persistência mantidos diante das dificuldades.

Percalços que não são só dela. Estão nas vidas de milhares de mulheres espalhadas pelo mundo, de forma igual ou diferente.

Como comemoração a este Dia Internacional da Mulher, o meu desejo é que você, que lê este texto, torne o seu caminho, muitas vezes cheio de espinhos, em uma estrada florida. Inspiração você já tem.

Fonte: JC Concursos

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